Coração que não avisa: a morte de Alan Sanches acende alerta sobre cuidados
Aos 58 anos, quatro dias depois de comemorar o próprio aniversário, o deputado estadual Alan Sanches morreu de forma repentina, vítima de uma parada cardíaca, no último sábado (17), em sua residência, em Salvador. Médico de formação, político experiente, enérgico e sem histórico público de problemas de saúde, Sanches deixa quatro filhos, uma família em choque, aliados perplexos e uma população que, mais uma vez, se vê diante de uma pergunta incômoda: por que o coração, tantas vezes, não avisa quando algo vai mal?
Figura influente da direita baiana e voz ativa e frequentemente combativa na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), Alan Sanches estava no quarto mandato como deputado estadual. A trajetória política começou em 2005, como vereador de Salvador, e ganhou projeção em 2011, quando chegou ao parlamento estadual. Pai do vereador Duda Sanches, construiu uma carreira marcada por debates firmes, presença constante nas sessões e forte articulação política.
A morte súbita, no entanto, interrompeu esse percurso de forma abrupta e trouxe à tona um tema que costuma ser empurrado para depois: a saúde do coração e os cuidados diários necessários para evitar desfechos extremos como a parada cardíaca, que pode atingir qualquer pessoa, inclusive aquelas consideradas jovens, ativas e aparentemente saudáveis.
A despedida precoce do deputado deixa luto, silêncio e uma mensagem dura. Qualquer pessoa pode ser vítima de uma parada cardíaca. Cuidar do coração é um compromisso diário, que pode significar, literalmente, a diferença entre a vida e a morte.
A parada cardíaca ocorre quando o coração deixa, subitamente, de bater de forma eficaz, interrompendo o fluxo de sangue para o cérebro e outros órgãos vitais. Diferente do infarto, que está relacionado à obstrução das artérias coronárias, a parada pode ser causada por arritmias graves, cardiopatias silenciosas ou até por fatores genéticos desconhecidos pelo próprio paciente.
Segundo a cardiologista Marianna Andrade, coordenadora da Cardiologia do Hospital Mater Dei, especialista pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e doutora em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da USP, casos como o de Alan Sanches ajudam a derrubar um dos maiores mitos da população: o de que apenas idosos ou pessoas doentes estão em risco.
“Qualquer pessoa pode sofrer uma parada cardíaca, mesmo que pareça saudável. Casos de morte súbita, especialmente em pessoas jovens, são chocantes. De acordo com a literatura científica, esses casos são frequentemente causados por condições cardíacas subjacentes não diagnosticadas previamente, como problemas estruturais ou elétricos do coração, que podem se manifestar abruptamente, muitas vezes durante esforço físico ou outras situações que funcionem como gatilho”, explica.
Na avaliação da especialista, há um conjunto de fatores silenciosos que vêm levando milhares de brasileiros a eventos cardíacos graves sem qualquer aviso prévio evidente.
“Os fatores de risco silenciosos incluem doenças cardíacas estruturais ou elétricas congênitas não diagnosticadas, doença arterial coronariana em estágio inicial,
hipertensão e diabetes não controlados e colesterol elevado. Essas condições podem progredir sem sintomas óbvios até um evento grave”, alerta.
Dados do Ministério da Saúde mostram que as doenças cardiovasculares continuam liderando o ranking de causas de morte no país, respondendo por cerca de um terço dos óbitos anuais. Na Bahia, a Secretaria da Saúde do Estado foi acionada pela reportagem para informar o número de mortes por parada cardíaca registradas em 2025 e 2026. Especialistas apontam que o estado acompanha a tendência nacional de crescimento desses casos, especialmente entre homens acima dos 50 anos.
Apesar de a parada cardíaca poder ocorrer de forma súbita, Marianna Andrade reforça que, em muitos casos, o corpo apresenta sinais prévios que acabam sendo negligenciados no dia a dia.
“Pode haver sinais prévios, sim. Dor ou desconforto no peito, falta de ar inexplicável, palpitações, desmaios ou tonturas, especialmente durante o exercício, não devem ser ignorados em hipótese alguma. Ao sentir qualquer um desses sintomas, a pessoa deve procurar atendimento médico o mais breve possível”, orienta.
A médica ressalta que um dos maiores erros cometidos pela população é atribuir esses sintomas ao estresse, à ansiedade ou ao cansaço da rotina. “O corpo fala. O problema é que muita gente não escuta.”
Rotina acelerada e coração sobrecarregado
A morte do parlamentar também reacende o debate sobre o impacto do estilo de vida moderno na saúde cardiovascular. Jornadas extensas de trabalho, pressão profissional, alimentação inadequada e noites mal dormidas formam um cenário cada vez mais comum.
“Hábitos como sedentarismo, dieta não saudável, tabagismo, consumo excessivo de álcool, estresse crônico e falta de sono sobrecarregam o coração”, afirma Marianna Andrade.
Segundo ela, o estresse contínuo libera hormônios que aumentam a pressão arterial e a frequência cardíaca, além de prejudicar hábitos protetores. “Esses fatores agravam condições cardíacas e aumentam o risco de complicações súbitas, como a parada cardíaca”, completa.
Por outro lado, mudanças simples no cotidiano podem reduzir significativamente os riscos. “Para proteger o coração, é fundamental adotar atividade física regular, alimentação balanceada, manter peso saudável, não fumar, controlar o estresse e dormir bem”, reforça.
Quando a emergência acontece, cada minuto salva
Em casos de parada cardíaca, o tempo de resposta é decisivo. A falta de circulação sanguínea por poucos minutos já pode causar sequelas neurológicas graves ou levar à morte.
“Em caso de emergência, a primeira atitude é acionar imediatamente o socorro, de preferência um serviço móvel de ambulância avançado. É preciso verificar se a vítima está inconsciente e sem respirar. Se a pessoa souber fazer, deve iniciar imediatamente as compressões torácicas no centro do peito”, orienta a cardiologista.
Ela destaca ainda a importância do uso do Desfibrilador Externo Automático, equipamento capaz de restaurar o ritmo cardíaco em muitos casos.
“Se houver um DEA disponível no local, ele deve ser utilizado seguindo as instruções de voz do próprio aparelho. A ação rápida é fundamental para a sobrevivência. Os cuidados devem ser mantidos até a chegada do socorro”, afirma.
Especialistas defendem que esses aparelhos estejam cada vez mais presentes em shoppings, aeroportos, estações de transporte, estádios, escolas e grandes eventos, além da ampliação de treinamentos em reanimação cardiopulmonar para a população.
Check-up - Outro ponto considerado essencial é o acompanhamento cardiológico regular. “A frequência do check-up varia conforme idade, histórico pessoal e familiar. Em geral, jovens saudáveis podem realizar avaliações a cada dois ou três anos. Já adultos com fatores de risco devem fazer acompanhamento anual”, explica Marianna Andrade.
Entre os exames básicos estão o eletrocardiograma, exames laboratoriais para colesterol e glicose e avaliação clínica detalhada. Dependendo do perfil do paciente, podem ser indicados ecocardiograma, teste ergométrico e exames complementares mais específicos.
Para a especialista, o Brasil e a Bahia ainda enfrentam gargalos importantes na prevenção das doenças cardiovasculares.
“Precisamos melhorar a conscientização da população, ampliar o acesso à atenção primária e aos exames de rastreio, aumentar a disponibilidade de desfibriladores em locais públicos e investir no treinamento em reanimação cardiopulmonar. Além disso, é fundamental implementar políticas públicas que promovam hábitos saudáveis e enfrentem os determinantes sociais da saúde”, defende.
Por Hieros Vasconcelos
Foto: Reprodução/Instagram Alan Sanches